O desfile da Hermès para o outono/inverno 2026/2027 aconteceu ontem durante a Paris Fashion Week e reafirmou a habilidade da maison em transformar discrição em espetáculo. Sob direção criativa de Nadège Vanhée-Cybulski, a coleção explorou a atmosfera do crepúsculo — aquele momento indefinido entre dia e noite — traduzido no título “Entre chien et loup”, expressão francesa que evoca a ambiguidade da luz ao entardecer.
O cenário reforçou essa narrativa sensorial. O espaço foi transformado em uma espécie de floresta coberta por musgo, com uma passarela sinuosa elevada sobre o “solo”, enquanto modelos surgiam de aberturas luminosas que lembravam luas artificiais. O ambiente criava uma sensação imersiva e silenciosa, alinhada à elegância quase introspectiva que a Hermès cultiva.
Na passarela, o couro — material emblemático da casa — dominou a coleção. Casacos fluidos com golas de shearling, vestidos com zíper frontal, jaquetas aviador e até shorts de ciclismo em lambskin apareceram em looks que misturavam utilitarismo e sofisticação. Em alguns momentos, a inspiração biker surgia reinterpretada com a precisão artesanal da maison.
A herança equestre da marca também esteve presente, especialmente nas silhuetas com jodhpurs, botas de salto baixo e peças que lembravam uniformes de montaria — um lembrete da origem da Hermès no universo do hipismo. Alfaiataria estruturada, blazers bem definidos e calças cigarrete trouxeram equilíbrio entre rigor e fluidez.
Na cartela de cores, a coleção caminhou por tons profundos e atmosféricos: azul escuro, verde, burgundy iridescente e oxblood, pontuados por acentos inesperados de amarelo sulfuroso e laranja. O contraste reforçou a ideia de transição entre luz e sombra que permeou todo o desfile.
O resultado foi uma coleção que reafirma o DNA da Hermès: luxo silencioso, domínio absoluto dos materiais e uma sensualidade sutil, construída mais pela qualidade das peças do que por qualquer excesso visual.