Quando Rei Kawakubo apresenta um desfile da Comme des Garçons, não se trata exatamente de uma coleção — mas de uma ideia em movimento. Na Paris Fashion Week, a designer japonesa voltou a transformar a passarela em um exercício conceitual sobre forma, emoção e contraste.
O desfile começou de maneira quase austera: uma sequência de 16 looks completamente pretos, silenciosos e densos. Cada peça parecia explorar a complexidade estrutural que define o trabalho de Kawakubo — volumes inesperados, superfícies texturizadas e construções que desafiam a lógica tradicional do vestuário.
Mas, como frequentemente acontece nas narrativas da Comme des Garçons, a coleção não permaneceu nesse território sombrio por muito tempo.
Após a sequência inicial, o desfile sofreu uma ruptura visual. As silhuetas retornaram — desta vez reinterpretadas em tons de rosa intensos e quase doces, criando um contraste radical com o rigor do preto que abriu a apresentação.
Tecidos como renda, chiffon, cetim e paetês surgiram em composições inesperadamente românticas, revelando um lado quase delicado da estética da marca — algo que raramente aparece de maneira tão explícita no universo de Kawakubo.
Esse jogo entre austeridade e suavidade acabou se tornando o verdadeiro tema do desfile. Se o preto inicial evocava a tradição “anti-fashion” que definiu a marca desde os anos 1980, o rosa final parecia sugerir uma provocação: até mesmo a rebeldia pode conter beleza, leveza e humor.
No fim, como acontece em muitos desfiles da Comme des Garçons, a coleção não oferece respostas claras. Em vez disso, deixa perguntas no ar — sobre o que é beleza, sobre como a roupa pode distorcer ou amplificar o corpo e sobre o poder da moda como linguagem artística.
E talvez seja exatamente por isso que Rei Kawakubo continua sendo uma das figuras mais radicais da moda contemporânea: enquanto muitas coleções buscam tendências, ela ainda parece interessada em algo mais raro — ideias.
